Sem terrenos, a cidade para de crescer -Luciana Seabra, Valor Econômico

A Paulista é o cartão postal da cidade, enquanto a Faria Lima é o cartão de visita". É assim que Mariana Hanania, gerente de pesquisa de mercado da Cushman & Wakefield (C&W), apresenta o mercado imobiliário de São Paulo às empresas que querem se instalar na cidade. De acordo com a consultoria, nas regiões mais cobiçadas, o preço médio do aluguel de espaços vagos em edifícios comerciais subiu a cada trimestre de 2010 e fechou o ano em R$ 91,08 o metro quadrado, valor 11% mais alto do que no último trimestre de 2009.

A Avenida Paulista, tradicional centro financeiro, mantém-se em alta, com aluguel médio de R$ 104 por metro quadrado em edifícios de alto padrão. A região oferece prédios mais antigos, mas ganha pontos pela disponibilidade de transporte público. Há pelo menos três anos, a Avenida Faria Lima lidera a lista de valorização, com média de R$ 134 o metro quadrado para o aluguel no último trimestre do ano passado. No levantamento da C&W, outras três regiões chamam a atenção pela evolução do estoque de área para instalação de empresas nos últimos dez anos: Vila Olímpia, com crescimento de 103%, Berrini, com 66% e Marginal Pinheiros, com 60%.

"Muitas empresas querem crescer e não têm mais espaço, algumas têm que mudar de prédio. Quando uma sai, imediatamente alugamos para outros ocupantes", afirma Roberto Perroni, presidente da Cyrela Commercial Properties. Ao avançar e transformar avenidas, o mercado imobiliário paulistano orienta a criação de novos centros de negócios e áreas de desenvolvimento, altamente valorizadas em seu entorno. Em 201, o Valor Geral de Vendas (VGV), importante termômetro do mercado imobiliário, ficou em R$ 19,6 bilhões na região metropolitana, de janeiro a novembro, segundo a consultoria imobiliária Lopes. O total corresponde ao valor potencial de venda dos edifícios lançados e é 37% mais alto do que no mesmo período de 2009.

O mercado está em ebulição tanto para empreendimentos comerciais quanto para residenciais. Mesmo com o período de estabilidade devido à crise financeira internacional, o preço do metro quadrado de imóveis residenciais novos cresceu 62% nos últimos cinco anos na cidade, segundo o Sindicato da Habitação (Secovi), acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 32% no período.

De janeiro a novembro do ano passado, 30 mil edifícios residenciais foram lançados na cidade, 19% mais do que no mesmo período do ano anterior. O economista-chefe do Secovi-SP, Celso Petrucci, considera que a valorização é consistente e não representa uma bolha imobiliária. "Está cada vez mais difícil e mais caro empreender em São Paulo. Grande parte da cidade não tem mais estoque para a construção". Segundo ele, bairros que cresceram muito recentemente, como a Vila Nova Conceição, não têm mais oferta de empreendimentos novos.

Com uma proposta diferenciada, a MaxHaus, há pouco mais de dois anos no mercado, comemora o bom momento. A empresa oferece, em diferentes regiões da cidade, apartamentos customizados, preparados para que reformas, como a troca de posição de um banheiro, possam ser feitas em uma semana. "Praticamente não temos estoques", afirma o presidente, José Paim de Andrade.

A vazão também é rápida para empreendimentos comerciais, principalmente em regiões valorizadas, como a Avenida Faria Lima e os bairros vizinhos Itaim e Vila Olímpia. Para Lilian Feng, gerente de pesquisa da consultoria imobiliária Jones Lang LaSalle, o período de estagnação devido à crise financeira, definitivamente ficou para trás.

Levantamento da empresa mostra que 140 mil metros quadrados em edifícios comerciais de alto luxo foram entregues em São Paulo em 2010. Para 2011, é esperado um estoque maior, de 230 mil metros quadrados. "Vai haver aumento de oferta, mas acredito que o mercado ainda não ultrapassará o equilíbrio. Deve haver crescimento real de preço, não tanto quanto nos últimos anos", prevê Lilian.

Segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção da Fundação Getúlio Vargas (FGV), depois da estagnação do final de 2008, o setor recuperou-se com a retomada do crédito aos agentes privados e o programa Minha Casa Minha Vida. Para a pesquisadora, entretanto, o ritmo de valorização deve se reduzir em 2011. Ela acompanha a previsão do Secovi-SP, de aumento próximo aos índices de inflação e preocupa-se com o futuro do setor. "A cidade enfrenta gargalos com relação a terrenos disponíveis. Se não forem feitas mudanças para revitalização de áreas degradadas, será difícil manter o ritmo de crescimento.

- Valor Econômico, Luciana Seabra